Por diferentes tradições filosóficas essa visão inorgânica do corpo humano imperou. A compreensão de um corpo orgânico, ou seja, animalesco, nunca agradou os estudiosos. Na tradição grega, por exemplo, Platão criou o conceito de corpo triádico: Alma, Razão e Pulsão, esta última como os desejos ou instintos do ser humano, que devem ser contidos pela razão.
Na Idade Média, por sua vez, existe um dualismo entre alma e razão ou razão e pulsão. A alma é eterna e o corpo propenso ao pecado. A divisão entre mente e corpo continua na modernidade, onde a racionalização é a base para as idéias de progresso e industrialização.
Por fim, no contexto pós-moderno, nasce o conceito de corpo sem órgão. Um corpo superficial, mais um artefato de inserção em alguma tribo do que um organismo individual. Nasce também, o conceito de corporeísmo, ou estética do corpo. O corpo desejado projeta-se como um avatar.
A tecnologia terá uma função essencial nessa questão, porque nosso corpo biologicamente não está preparado para acompanhar a velocidade das modificações tecnológicas. Nossa memória não é capaz de guardar todas as informações que recebe, nós não podemos enxergar todo o espectro de cor, ou discernir todos os cheiros existentes. Pensar a tecnologia como extensão do homem é interessante e perigoso, pois a tecnologia da mesma forma que nos dá poder, ampliando nossa capacidade corpórea, nos deixa dependentes.
É a partir daí que diversas patologias relacionadas ao corpo e à imagem surgem, anorexia, bulimia... As cirurgias plásticas tinham como finalidade consertar deformações causadas por acidentes ou tornar mais plásticas algumas imperfeições, no entanto, milhares de adolescentes com o corpo ainda em transformação realizam operações puramente estéticas.
A neurose de um corpo perfeito chega ao ponto de transformar o organismo em algo efêmero, por meio de tatuagens até comportamentos parafílicos, como a apotemnofilia e a acrotomofilia, em que a excitação sexual só é alcançada quando um Membro do corpo é amputado. Intervenções que substituem partes do corpo por peças biônicas, também são exemplos dessa nova cultura que tenta transcender o corpo.