quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Olhar

A língua portuguesa tem um verbo específico para conjugar o foco da visão: olhar. Diferentemente de outras línguas latinas, como o espanhol (mirar), o italiano (guardare) e o francês (regarder), que têm, respectivamente, sentidos como mirar e guardar algo, o português têm, nessa palavra, a raiz orgânica, o olho.

Ao lançar um olhar sobre algo, estamos colocando um sentido particular a uma situação ou a um objeto. Isso tem sido muito usado na atualidade não só para demonstrar visões diferentes, mas para manipular informações. Esse fenômeno ocorre muito em campanhas políticas que são, em última análise, campanhas de marketing. Um interesse pode ser defendido através de um olhar.

Mikhail e sua Filosofia

Enxergar a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo - e não apenas como um sistema autônomo foi algo muito inovador da parte de Bakhtin.. "A língua materna, seu vocabulário e sua estrutura gramatical, não conhecemos por meio de dicionários ou manuais de gramática, mas graças aos enunciados concretos que ouvimos e reproduzimos na comunicação efetiva com as pessoas que nos rodeiam".
Segundo essa concepção, a língua só existe em função do uso que locutores (quem fala ou escreve) e interlocutores (quem lê ou escuta) fazem dela em situações de comunicação. O ensinar, o aprender e o empregar a linguagem passam necessariamente pelo sujeito, o agente das relações sociais e o responsável pela composição e pelo estilo dos discursos. Esse sujeito se vale do conhecimento de enunciados anteriores para formular suas falas e redigir seus textos.
Nessa relação dialógica entre locutor e interlocutor no meio social, em que o verbal e o não-verbal influenciam de maneira determinante a construção dos enunciados, outro dado ganhou contornos de tese: a interação por meio da linguagem se dá num contexto em que todos participam em condição de igualdade. Aquele que enuncia seleciona palavras apropriadas para formular uma mensagem compreensível para seus destinatários. Por outro lado, o interlocutor interpreta e responde com postura ativa àquele enunciado, internamente (por meio de seus pensamentos) ou externamente (por meio de um novo enunciado oral ou escrito).

Do Panóptico ao Orkut

Quando George Orwell escreveu 1984, ele previu uma sociedade sob um regime totalitário, onde a principal forma de controle eram as câmeras de vídeo. Assim como o Panoptico de Berthan, a capacidade de um olho que tudo vê, capaz de observar as pessoas, seus atos, seus discursos e suas vidas cotidianas, faz com que elas não tenham coragem de exercer atividades contrárias ao Estado.
Apesar de vivermos em um regime capitalista liberal, nos encontramos em uma sociedade vigiada. Para onde formos há uma câmera nos filmando: lojas, bancos, postos de gasolina, elevadores, condomínios, avenidas, nossas próprias casas. Porém, esses objetos de vigília não nos foram impostos, nosso próprio medo fez com que os adotemos.
No entanto, não parecemos tão preocupados com isso. Nós não trocamos, apenas, nossa liberdade pela falsa impressão de segurança. Nossa condição de observados virou fetiche. Os programas com maior ibope na televisão são os reallity shows (que pipocam nos canais abertos e pagos).
Mas a televisão, sempre defasada em comparação com a Internet, em nenhum momento imaginou o surgimento de redes sociais como o Orkut (nada mais que uma vitrine pessoal 24 horas por dia) ou o youtube (onde podemos contribuir com nossos vigilantes enviando nossos próprios vídeos), entre tantas outras.
O voyerismo do espectador de cinema transformou-se em escopofilia nas novas mídias. E o Estado perdeu seu papel de vigia para empresas privadas como o Google, que tem acesso a bilhões de dados particulares (como perfis do orkut, contas de email, o que seus usuários procuram nas ferramentas de busca, etc).
Por fim, até a visão começa a perder seu caráter dominador, pois a imagem começa a ser substituída pelos dados, como meio de controle.

Mídia e Democracia

“O Paleolhar da Televisão” de Décio Pignatari é um dos melhores textos sobre o assunto que já li. Ao mesmo tempo técnico e poético, esse pequeno artigo tem observações inspiradas. Já no primeiro parágrafo, Pignatari define a TV de um modo interessante: “caverna platônica às avessas: o mundo entra casa a dentro e projeta nas paredes as sombras dos cavernícolas mesmerizados”.
Nem tão original, mas igualmente precisa, é a comparação entre a televisão e um narcótico. Para o autor, apesar da TV não ser tão apaixonante quanto outras mídias (como o cinema ou os quadrinhos) ela é viciante.
Heroína e vilã, a televisão é defendida por muitos como a mídia que garantiu a integração nacional e o acesso de informação e conhecimento para milhões de brasileiros. Porém, é apontada, por outros, como canal de emburrecimento popular, devido a sua superficialidade e parcialidade. Mas Décio vai ainda mais longe em sua crítica, ele chega a afirmar que essa mídia audiovisual garante o analfabetismo, que é muito cômodo para as elites brasileiras.
Essa é a segunda vez que leio este mesmo texto. Da primeira vez, ao deparar-me com a questão da democracia e da política versus televisão, concluí rapidamente que a melhor alternativa a isso eram as mídias digitais. A interatividade será capaz de democratizar os meios, pensava eu.
Agora, ao pensar na dependência que as redes sociais geram em algumas pessoas, em como as opiniões dissonantes são marginalizadas nos fóruns de discussão e como a blogoesfera é ainda incapaz de criar debates consistentes, fico a me indagar se as novas mídias não são apenas televisões-metidas-à-besta ou se não desenvolveram seu potencial democrático ainda. Talvez, quem sabe, o problema não esteja nos meios de comunicação e sim na nossa cultura.

O Impacto da Globalização

A globalização é um processo caracterizado por uma enorme perversidade e que tem como condições fundamentais, o espaço geográfico e a tecnociência. São estas as condições básicas para a globalização: a geografia do mundo e o desenvolvimento técnico-científico e informacional. Como tal, a globalização não se encerra no problema de conhecimento do mercado e da economia, mas no conhecimento do mundo, cuja existência se descola da economia e se conecta diretamente no espaço geográfico, isto é, com as pessoas e com o território, elementos que são abandonados pelo processo de globalização mas impostos pelo processo de fragmentação. Nos lugares, pessoas e territórios se fazem presentes na sua luta cotidiana contra o massacre da globalização.
Desemprego é uma das conseqüências perversas da natureza desse processo de globalização que, tal como vem sendo assumido e compreendido, ignorando as pessoas e os territórios, os quais são diluídos nas abstrações, embora quantitativas, dos chamados planos econômicos.
Mas, é importante destacar que as pessoas e os territórios se fazem sentir, violentamente, através do processo de fragmentação visível, seja na Bósnia, Sarajevo, seja na criação de novos territórios, por vezes sob forma violenta cidade de São Paulo. É preciso estar também atento ao fragmento, aos lugares.
Os problemas contemporâneos, e especialmente o da pobreza e do desemprego, encontrarão solução no âmbito da política e da ética. Trata-se da construção de um mundo novo, pautado não no discurso perfeito, que caracteriza as análises e ações sobre a realidade nesta contemporaneidade, mas numa perspectiva de ação colada na realidade do mundo, constituída por uma maioria de pobres e desempregados. Neste mundo, a economia passa a ser coadjuvante.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O esclarecimento segundo Kant

Para Kant, o esclarecimento é aquilo que objetivavam os iluministas, ou seja, iluminar-se, pôr-se à luz da razão. Mas isso não se restringe apenas a conhecer e entender, na teoria kantiana o esclarecimento é uma condição moral em que o cidadão alia seu profundo conhecimento em determinado assunto a uma autonomia crítica sobre tal.

De acordo com o filósofo, todos podem alcançar o esclarecimento se possuírem liberdade. Porém, esse não é o único fator determinante para esclarecer-se, é preciso vontade, empenho e coragem. Muitos não desenvolvem esta condição moral por medo, covardia ou comodismo, uns até possuem condições intelectuais para se tornarem esclarecidos, mas não o fazem por temor a retaliações de autoridades ou instituições. Esses vivem na menoridade, termo utilizado por Kant para designar imaturidade e dependência, auto-imposta.

Apenas possuir o amplo conhecimento sobre um assunto específico não é suficiente para alcançar o esclarecimento, a autonomia é também imprescindível. O conhecimento é somente a primeira etapa, deve-se depois assumir uma postura crítica sobre esse conhecimento. E essa crítica deve ser feita através do uso público da razão, ou seja, deixando de lado interesses particulares e priorizando o benefício do próximo. Logo, o esclarecimento consiste em comprometer-se moralmente com a sociedade da qual se faz parte procurando aperfeiçoá-la constantemente.

VIda cotidiana

Todas as sociedades tem uma maneira própria de se organizar. Essa organização vai definindo os padrões a serem seguidos pelos integrantes desses grupos sociais. Esses padroes são os pilares em que os costumes da sociedade são fundamentados e sÃo responsáveis pela definição dos conceitos de certo, errado, belo, feio, moral, éticoetc. É a partir deles que são criadas as leis, movimentos sociais, a arte e as ações diarias das pessoas.
O conjunto dessas ações é o que chamamos de vida cotidiana. Todo homem nasce inserido em uma vida cotidiana e é impossivél viver for a dela. Em qualquer nos mantemos dentro dessa cotidianiedade por meio das ferramentas que recebemos e que são necessárias para nos inserir nas formas de organizão social, de acordo comos papéis que nos são atribuídos. Temos papépis na família (filho, irmão, pai, mão, avó, neto), no trabalho ( empregados, patrões) na vida acadêmica (professor, aluno), enfim, em todas as relações.
Com o passar do tempo os padrões se tornam hábitos pessoais, que as ações causadas a partir deles passam a ser cada vez menos refletidas. Agimos por espontaniedade e generalização, pensando sempre em obter resultados favoráveis sem a existencia de reflexão sobre a ação. E a vida cotidiana acaba sendo vista como lugar de exploração, dominação e alienação.
Ao exercício de refexão sobre nossas ações cotidianas, ações comuns a todos os homens, como o trabalho, pode se dar a vida genérica.
Todos os indivíduos realizam algum tipo de trabalho, porque é assim que a vida cotidiana é gerada, o trabalho torna-se uma atividade humano-genérica, comum a todos os homens, porém, cada indivíduo tem motivações partiulares que dirigem ao seu trabalho para satisfação de necessidades indivíduais. Se não houver essa idealiazação de um objeto a ser atingido a partir de sua realização, o trabalho perde o sentido enquanto atividade humano-genérica e assim, dá-se ao processo de alienação, em que se cria um abismo entre a produção comum ao gênero humano e a consciência na participação da produção.
Essa idealização é o que conehcemos por mito do trabalho, que geralmente trasmite os ideais que os empregadores desejam que os seus trabalhadores assimilem como padrões de comportamento, para manter a vida cotidiana voltada a produção. O trabalho passa a ser visto como meio de obtenção do conforto material.