segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A economia globalizada

A globalização impôs profundas mudanças à economia mundial. Agora, como diz Sloterdijk em seu No Mesmo Barco, a sociedade globalizada “não se define através de pátria e solo, mas de acessos a estações ferroviárias, terminais aéreos, possibilidades de conexões. O mundo é uma hiper-esfera conectada”. E a política econômica seguiu o mesmo caminho, o da globalização do capital.

A economia antes baseada no capital nacional e que mantinha o ‘comércio externo’ num plano secundário ultrapassou as fronteiras nacionais para atingir um nível globalizado. Dissipou-se, deixou de se concentrar num único pólo. As empresas, agora multinacionais, se espalham em diferentes paises e continentes sempre me busca de locais onde consigam baixos custos para a produção e grandes lucros nas vendas.

No mundo globalizado, a economia deixa de ser nacional já que todas as partes de uma empresa, todos os seus diferentes setores estão espalhados pelo mundo, de acordo com os interesses e vantagens oferecidas à empresa; seu setor administrativo, por exemplo, pode estar num determinado país e já a indústria em si, onde o produto é feito, pode estar a milhares de quilômetros de distância, em outro continente até, e ainda as lojas que vendem o produto estão espalhadas por todo o planeta. Essa descentralização é marca de uma economia globalizada.

A globalização afeta inclusive indústrias estatais, pouco lucrativas para os atuais padrões internacionais, que acabam privatizadas ou desativadas. Mas, ainda assim, com a privatização dessas indústrias, a internacionalização do capital e a diminuição do poder do Estado, a globalização é em parte dependente do Estado, principalmente no aspecto estrutural, já que grande parte da infra-estrutura é organizada e mantida por iniciativa estatal.

Era de auto-reflexão

A era de auto-reflexão do cinema hollywoodiano desperta uma reflexão sobre o mundo em que vivemos: de que todo nosso mundo perceptível poderia ser como um filme rodado em Hollywood e que, assim, os filmes lá produzidos seriam mais reais que a realidade, pois ela não nos mostra nada além, diferentemente do que vemos nos filmes. Considerando tal hipótese, viveríamos num mundo produzido, artificial.

De fato, hoje temos muito mais acesso a coisas produzidas, artificiais e, consequentemente, o mundo possui apresenta uma alta taxa de artificialidade. Ao natural e ao artificial é possível fazer uma relação com o produtor e o consumidor. Aquele que produz tem contato com o natural, a partir do natural faz seu produto. O consumidor adquire o que foi produzido e que, portanto, é artificial. A partir dessa comparação, é claro que atualmente o mundo é visto da perspectiva do consumidor e não do produtor. Como diz Groys, “o consumidor vê o mundo inteiro como oferta a que tem de adaptar sua demanda”.

Em tempos de consumo de massa, a maioria desta é hoje constituída pelo consumo, e a minoria, pelo trabalho. Sendo assim, o natural pouco importa à massa, o artificial prevalece e é ele, que sob forma do consumo, une as pessoas à massa, enquanto o trabalho, cada vez mais específico e individualizado, determina um distanciamento da mesma.

Ideologias

A ideologia, os valores ideológicos de cada cidadão estão incrustados na consciência humana, assim como valores sociais e coletivos. E deste modo, como tudo que envolve o pensamento humano, diferentes correntes divergem sobre o conceito de ideologia.

Para os marxistas, a ideologia funciona com a visão do homem, toma-se a realidade da sociedade e do seu reflexo invertido na consciência humana forma-se a ideologia. Portanto, para Marx a consciência que o homem tem do mundo que o envolve é ilusória e tudo que está organizado e fundamentado de acordo com os valores desse mundo é equivocado. Anteriormente a Marx, ideologia e consciência não se separavam, eram consideradas a mesma coisa. Marx distinguiu ideologia de consciência e segundo ele se a sociedade se conscientizasse plenamente sobre as relações sociais a ideologia desapareceria.

Durante o período stalinista, a ideologia passou a ser vista como um conjunto de opiniões, ideias e conceitos dos quais compartilhavam determinados grupos. E desta forma, numa sociedade de classes a ideologia também era de classes, visto que cada classe defendia seus ideais. A ideologia passou a representar a luta de classes.

A ideologia marxista soviética foi qualificada como ideologia científica e, desta forma, deixou de existir a distinção entre ciência e ideologia; a ciência passou a ser ideológica.

"Sorria! Você está sendo filmado!"

A questão do olhar pode ser abordada dos mais diversos aspectos e pontos de vista. Nesse texto, especificamente, focarei na relação do “olhar” com as formas de vigilância, punição e poder. Esse tema e, em particular esse subtema já foram tratados em várias obras de literatura (ficcionais) e de filosofia, que inclusive, fazem-se ainda atuais, não necessariamente em seus exemplos, mas na essência de suas teorias. É preciso primeiro apresentar brevemente essas obras para poder relacioná-las.

Em 1785, Jeremy Bentham, filósofo utilitarista pensa o Panoptico e acredita que a sua vantagem essencial seria “a faculdade de ver com uma olhadela tudo o que se passa”. Segue a descrição de Foucault sobre o Panoptico:

“O Panopticon era um edifício em forma de anel, com um pátio no meio no qual havia uma torre central com um vigilante. Esse anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior, o que permitia que o olhar do vigilante as atravessasse. Essa forma arquitetônica das instituições valia para as escolas, hospitais, prisões, fábricas, hospícios” (1977: p.87).

“O Panopticon era uma espaço fechado, recortado e vigiado em todos os seus pontos. Nele os indivíduos estavam inseridos num lugar fixo, com os menores movimentos e acontecimentos controlados. O poder era exercido segundo uma figura hierárquica contínua, o que permitia que cada um fosse constantemente localizado, examinado e distribuído” (Foucault, 1977: p.174).

Em 1932, Huxley publica o Admirável Mundo Novo que envolve aquela realidade biológica e psicologicamente condicionada e controlada. Em 1949, Orwell publica o livro 1984, que traz a idéia do Big Brother/Grande Irmão como aquele que vê tudo, mas que não é observado por ninguém. É o ver sem ser visto, dominador, totalitarista. Foucault retoma e analisa o panoptico de Bentham na década de 1970.

O ponto que levanto aqui é que o panoptico continua recente (inclusive em prisões como essa http://tinyurl.com/y85nnly ), mas também no conceito de “poucos vigiarem muitos”. Qualquer lugar que haja câmeras de vigilância (atualmente isso ocorre em quase todos os espaços públicos e comerciais) está incluído em uma espécie de panoptico.

Entretanto, nessa sociedade também ocorre o contrário. Segundo Mathiesen (1997) o modelo do panoptico foi alterado para um modelo do tipo sinóptico, em que a lógica é invertida e muitos passam a observar poucos: “os espetáculos tomam o lugar da supervisão e a obediência aos padrões tende a ser alcançada pela tentação e pela sedução e não mais pela coerção, aparecendo sob o disfarce do livre-arbítrio, em vez de revelar-se como força externa” (apud Bauman, 2001, p.101).

Seguindo esse pensamento, é como se o Big Brother pensado por Orwell coubesse na idéia de panoptico, enquanto o Big Brother Brasil, programa televisivo produzido pela Rede Globo, pertencesse à idéia de sinóptico, na medida em que milhões de brasileiros assistem a “vida” de poucos através da TV.

E é claro que isso vai muito além, pois, está presente de diferentes formas na sociedade. Todos os mecanismos de sites de relacionamentos que permitem você ver quem está ou não está online, os locais que cada um navegou, os recados que você deixou ou deixaram pra você, entre inúmeras outras ferramentas que, no fundo demonstram (ao menos) que os conceitos de indivíduo e coletivo e a noção de privacidade foram completamente alterados ao longo dos últimas duas décadas.

Guy Debord e a sociedade do espetáculo

Guy Debord dizia que as décadas de 60 e 70, transição da sociedade do trabalho para a sociedade do consumo seria a sociedade do espetáculo (com o espetáculo sendo as falsas revoluções como na china e em cuba)
Ele começa seu primeiro longa que leva o mesmo nome de seu livro, sociedade do espetáculo com a frase:"já que todo sentimento particular é somente um aspecto parcial da vida e não a integridade da mesma, a vida se mostra, apesar da diversidade dos sentimentos e assim se redescobre na totalidade desta diversidade; no amor, o separado ainda existe mas não tão o separado quanto o unido; e o vivo se reencontra com o vivo."criticamente Guy se refere aos sentimentos dos indivíduos como não tendo importância na sociedade do espetáculo.
Logo depois ele diz:"toda a vida em sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se auto-anuncia como a imersa acumulação de espetaculos.Tudo que foi diretamente vivido foi transformado em representação.As imagens que foram destacadas de todos os aspectos da vida se dissolvendo num fluxo natural, onde a unidade desta vida não pode mais ser reestabelecida.A considerada realidade desdobra-se em sua própria unidade geral como um pseudo-mundo à parte, um objeto apenas de contemplação.A especialização das imagens do mundo se encontra novamente abarrotada, no mundo da imagem autônoma, onde o mentiroso mente a si mesmo"confirmando a sua visão de mundo nesta época, Guy separa o mundo das imagens do mundo real, como se a reprodução do que aconteceu de verdade sempre será uma representação e não uma apresentação dos fatos.

Globalização

“O conceito do direito mundial de cidadania não os protege (os povos) contra a agressão e a guerra, mas a mútua convivência e proveito os aproxima e une. O espirito comercial, incompatível com a guerra, se apodera tarde ou cedo dos povos. De todos os poderes subordinados à força do Estado, é o poder do dinheiro que inspira mais confiança e por isto os Estados se vêm obrigados - não certamente por motivos morais- a fomentar a paz...” - I.Kant - A paz perpétua, 1795 .
No século XX três tipos de governo para o mundo globalizado disputavam como o que melhor se adaptava para sociedade da época: o comunista, inaugurado com a Revolução bolchevique de 1917 e reforçado pela revolução maoista na China em 1949; o da contra-revolução nazi-fascista que, em grande parte, foi uma poderosa reação direitista ao projeto comunista, surgido nos anos de 1919, na Itália e na Alemanha, extendendo-se ao Japão, que foi esmagado no final da 2ª Guerra Mundial, em 1945; e, finalmente, o projeto liberal-capitalista liderado pelos países anglo-saxãos, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.
Primeiro ocorreu a aliança por auto-defesa entre liberalismo e comunismo, depois, a destruição do nazi-fascismo. Os EUA e a URSS se desetenderam começando assim a guerra fria, uma guerra ideológica e uma corrida armamentista e tecnológica que perpetuou durante 42 anos, o que poderia virar uma tragédia se concretizada uma guerra de fato.
Depois do termino da guerra fria, a queda do muro de berlim e a dissolução da URSS.Só restou a hegemonia capitalista, não havendo nenhuma barreira à antepor-se a globalização.
Chegamos desta forma a situação presente onde sobreviveu uma só superpotência mundial: os Estados Unidos. É a única que tem condições operacionais de realizar intervenções militares em qualquer canto do planeta (Kuwait em 1991, Haiti em 1994, Somália em 1996, Bosnia em 1997, etc..). Enquanto na segunda fase da globalização vivia-se na esfera da libra esterlina, agora é a era do dólar, enquanto que o idioma inglês tornou-se a língua universal por excelência. Pode-se até afirmar que a globalização recente nada mais é do que a americanização do mundo.

O dinamismo do período renascentista.

O renascimento, período compreendido aproximadamente entre o final do século XII e meados do século XVII, foi uma época de grandes mudanças sociais e econômicas. No campo social os conceitos de humanidade, religiosidade, entre outros foi repensado, e no campo econômico foi o período de transição entre o sistema feudalista e o capitalista. Segundo Agnes Heller: “O conceito de Renascimento significa um processo total, estendendo-se da esfera social e econômica onde a estrutura básica da sociedade foi afetada até o domínio da cultura, envolvendo a vida de todos os dias e as maneiras de pensar, as práticas morais e os ideais éticos quotidianos, as formas de consciência religiosa a arte e a ciência.
Ao contrário do que se pode pensar, o Renascimento não se tratou de uma renovação da antiguidade, de forma a imita-la, mas teve a antiguidade como fonte de idéias passíveis de serem transformadas de acordo as necessidades e desejos da época. Um exemplo disso é o conceito de igualdade, tão forte na revolução francesa, ser desconhecido na antiguidade. Esse conceito surgiu apenas com o cristianismo, como igualdade perante a Deus.
No renascimento surge um conceito dinâmico de homem. Tanto na antiguidade, quanto na idade média o homem era limitado pela sua condição de nascença, o camponês será sempre camponês, porque nasceu assim. Pode-se dizer que o renascimento foi o primeiro momento na história do homem em que o indivíduo passa a ter sua própria história de desenvolvimento social, porque sua condição social é relativa a sua posição na escala produtiva e não mais ao berço. Além disso, concepções como beleza, conceitos de certo e errado, a justiça, entre outros, deixaram de ser conceitos absolutos e passaram a ser vistos de formas diferentes por diferentes pensadores. Segundo Agnes Heller: “A maneira como os ideais se tornaram pluralistas revela-se mais claramente no aparecimento de um sistema pluralista de valores morais.”. Além disso, esse dinamismo relaciona-se também ao surgimento do protestantismo. O homem, como agente do próprio destino passa a procurar caminhos individuais para Deus, o que seria impensável durante a maior parte da idade média.
Durante a antiguidade o ideal de homem coincidia com o conceito de homem. Um exemplo disso é Sócrates, segundo ele o homem conhecendo o bem é capaz de praticá-lo, sendo assim, o homem ideal é aquele que pratica o bem. Na idade média a situação muda: o conceito de homem se relacionava à idéia de perversão, enquanto seu ideal se relacionava a idéia de graça. O período renascentista, no entanto, se difere de ambos os pensamentos: não houve, nesse período uma unidade de pensamento com relação ao homem ideal. O dinamismo do conceito de homem e homem ideal refletiam a instabilidade do renascimento. Dessa forma, como diz Heller, os ideais humanos mais contraditórios só podem ser interpretados através de um conceito dinâmico de homem.
Outra característica marcante do renascimento é que ao lado da subordinação ao estado e à religião surgiu a subordinação nacional. Pode-se considerar que o ideal cristão do homem perdeu espaço, embora as pessoas continuasse religiosas.
Dessa forma, pode-se perceber o Renascimento como um período de dinamismo religioso, moral, político e social, no qual conceitos anteriormente estáticos passaram a ser visto e repensados das mais diferentes maneiras.